Lei da Aprendizagem: quando a obrigação pode se transformar em oportunidade

Quando falamos sobre a Lei da Aprendizagem, muitas empresas ainda enxergam o jovem aprendiz apenas como uma obrigação que precisa ser cumprida. Na minha experiência com as empresas, percebo que muitas acabam conhecendo melhor o programa somente quando surge uma necessidade de contratação ou quando chega uma notificação relacionada ao cumprimento da cota.

Isso acontece porque, muitas vezes, a aprendizagem chega para a empresa primeiro como uma exigência. Mas será que precisa ser vista somente dessa forma?

Acredito que não.

A aprendizagem pode ser muito mais do que cumprir uma obrigação legal. Ela pode representar uma oportunidade tanto para o jovem quanto para a empresa.

O que diz a Lei da Aprendizagem?

A Aprendizagem Profissional permite que jovens de 14 a 24 anos sejam inseridos no mercado de trabalho na condição de aprendizes, por meio de contrato de aprendizagem e de um programa de formação técnico-profissional. Para pessoas com deficiência, não se aplica o limite de 24 anos.

Essa formação combina atividades teóricas e práticas e tem como objetivo preparar o jovem para o mundo do trabalho. A obrigação de contratar aprendizes surge quando o estabelecimento possui sete ou mais empregados em funções que demandam formação profissional. A cota deve ficar entre 5% e 15% desses empregados, de acordo com as regras e exceções previstas na legislação. 

Mas, na prática, conhecer a obrigação não significa necessariamente compreender a aprendizagem.

Quando a empresa começa a enxergar além da cota

Muitas empresas ainda enxergam o jovem como uma obrigação e acabam contratando somente para cumprir tabela.

Mas também vejo que esse olhar vem mudando.

Hoje, temos empresas que constroem programas voltados para o desenvolvimento dos jovens. Um exemplo que gosto de lembrar é o de uma empresa parceira do ramo de joias, que possui um programa voltado para o desenvolvimento dos aprendizes. Eles realizam rodas de conversa e outros momentos de troca com os jovens. Em uma dessas oportunidades, inclusive, o PROJOV também participou, levando uma psicóloga para conversar sobre saúde mental. Para mim, isso demonstra uma mudança importante de perspectiva.

A empresa começa a entender que o jovem aprendiz não está ali apenas para preencher uma vaga e cumprir uma obrigação. Existe uma pessoa por trás daquele contrato, com dúvidas, expectativas, dificuldades e muito potencial para ser desenvolvido.

E acredito que esse seja um ponto importante porque estamos falando de um novo público chegando ao mercado de trabalho.

As empresas também precisam se adaptar a esse novo perfil de jovens. Eles são o futuro do mercado de trabalho e, para que esse futuro seja construído de forma saudável, é necessário que exista abertura para entender quem são esses jovens e o que eles esperam do ambiente profissional.

A importância da proximidade entre empresa e entidade

Acredito muito que esse processo depende da proximidade entre a empresa e a entidade formadora. No PROJOV, existe um trabalho conjunto entre diferentes áreas. Na parte de Relações Empresariais, que é a área que coordeno, acompanhamos o contato inicial com as empresas, a prospecção, o recrutamento, os contratos, os calendários e outras etapas da parceria.

Depois, existe o acompanhamento junto à equipe técnica da aprendizagem.

Esse trabalho conjunto é importante porque permite que a gente não olhe apenas para a contratação. Conseguimos acompanhar também as dúvidas, dificuldades e situações que aparecem durante a jornada do jovem.

E o PROJOV já trabalha pensando justamente nessa proximidade por meio do Café com Propósito, um encontro realizado com empresas parceiras para conversar sobre temas importantes do dia a dia dos profissionais de RH.

Já tivemos encontros sobre NR-1, geração Z no mercado de trabalho, gestão de benefícios, entre outros. A Lei da Aprendizagem também entra nessa conversa porque, mesmo sendo uma realidade para muitas empresas, ainda existem dúvidas que aparecem no dia a dia.

Questões relacionadas a afastamentos, presença, custos e responsabilidades da empresa são alguns dos pontos que ainda geram dúvidas.

Acredito que quanto mais informação e proximidade existirem, mais fácil fica para a empresa entender que a aprendizagem não precisa ser encarada somente como uma obrigação.

Quando a empresa precisa parar e entender o processo

Uma das situações que mais me marcou aconteceu no acompanhamento de uma empresa que queria desligar um jovem aprendiz por baixo desempenho. A empresa entendia que poderia simplesmente realizar o desligamento. Porém, no caso da aprendizagem, existem regras específicas que precisam ser observadas.

É necessário entender o que aconteceu, acompanhar o desenvolvimento do jovem e registrar as ações realizadas. Dependendo da situação, é preciso que exista um acompanhamento mais próximo, com participação da equipe responsável e tentativas de entender o que poderia ser feito para melhorar aquele desempenho.

Naquele momento, eu ainda era uma coordenadora recém-promovida e estava acompanhando a situação junto com outra profissional da equipe de aprendizagem. Precisamos explicar para a empresa que a aprendizagem tem uma finalidade de formação e desenvolvimento. Não podemos simplesmente tratar o jovem como alguém que já deveria chegar pronto para desempenhar uma função.

Foi um momento bastante desafiador.

Porque, ao mesmo tempo em que queremos manter uma boa relação com as empresas que são nossas parceiras, também precisamos defender aquilo que dá sentido ao nosso trabalho: o desenvolvimento do jovem aprendiz.

O jovem não chega pronto

Talvez esse seja um dos principais pontos que eu gostaria que as empresas levassem dessa conversa: o jovem aprendiz está aprendendo.

Ele não chega pronto.

Está entrando, muitas vezes, pela primeira vez em um ambiente profissional. Está conhecendo uma rotina, aprendendo a lidar com responsabilidades, horários, cobranças, pessoas e também com os próprios erros. Por isso, acredito que as empresas precisam ter um pouco mais de paciência e estar abertas ao desenvolvimento.

Isso não significa deixar de cobrar ou de estabelecer expectativas. Significa entender que existe um processo de aprendizagem acontecendo. Hoje, vivemos muitas mudanças no mercado de trabalho. No meu dia a dia como coordenadora, trabalho com pessoas de diferentes gerações. Eu tenho 24 anos e convivo profissionalmente tanto com pessoas com mais de 50 anos quanto com pessoas muito jovens.

A diferença de pensamentos, expectativas e formas de enxergar o mercado de trabalho é muito grande. E acredito que as empresas precisam ir se adaptando a essas mudanças para que ninguém perca. Hoje, vemos muitos jovens que acabam desistindo do mercado de trabalho formal e buscando alternativas no mercado informal. E não é esse o caminho que queremos.

Queremos segurança para os jovens e segurança para as empresas. 

Eu acredito nisso porque também vivi a aprendizagem. Talvez eu fale sobre esse assunto com tanta convicção porque eu também vivi essa experiência. Há cerca de 7 anos, fui jovem aprendiz no PROJOV.

Passei pela área de contratos e tive contato com contratos, departamento pessoal, RH e administrativo. Durante esse período, tive a oportunidade de absorver muito conhecimento e conhecer diferentes áreas dentro de uma organização. Depois, tive a oportunidade de ser efetivada como auxiliar e continuei crescendo dentro da empresa.

Hoje, sou coordenadora comercial júnior. Quando olho para a minha trajetória, reconheço a diferença que o programa de aprendizagem fez na minha vida. Não foi apenas uma oportunidade de ter o primeiro emprego. Foi uma oportunidade de conhecer áreas, desenvolver habilidades, entender o ambiente profissional e descobrir caminhos que eu poderia seguir. 

E eu não vejo isso como um caso isolado.

Conheço outras pessoas que também começaram como jovens aprendizes e continuaram se desenvolvendo profissionalmente. Recentemente, conheci um ex-aluno que participou da nossa capacitação em 2011 e também foi jovem aprendiz pelo PROJOV. Hoje, ele atua como gerente de projetos. 

Para mim, isso é uma conquista enorme. 

São histórias como essas que me fazem enxergar a Lei da Aprendizagem de uma maneira diferente.  Não estamos falando apenas de contratos, cotas ou obrigações. Estamos falando de pessoas que podem iniciar suas trajetórias profissionais a partir dessa oportunidade.

O que podemos fazer diferente? Acredito que ainda temos muito a avançar. As empresas precisam conhecer melhor a Lei da Aprendizagem, mas também precisam enxergá-la para além da obrigação legal.

Entidades e empresas precisam estar próximas, orientando, tirando dúvidas e apoiando os desafios que surgem ao longo do caminho. E as empresas também precisam estar abertas a conhecer melhor os jovens que estão chegando.

Quando existe essa conexão entre empresa, entidade e jovem, a aprendizagem cumpre seu verdadeiro papel: criar oportunidades e contribuir para o desenvolvimento de quem está começando.

No fim, quando uma empresa contrata um jovem aprendiz, não está apenas cumprindo uma cota. Está ajudando a construir uma história.

-Giulia Caldas

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